Deveríamos ou Poderíamos?
- Henrique Michel

- 17 de mai.
- 3 min de leitura
Atualizado: 18 de mai.

Um dos erros mais comuns que encontro em projetos de estratégia é a confusão entre dois tipos muito diferentes de desafio organizacional: o GAP de performance e o GAP de oportunidade. A distinção parece simples, mas ela altera profundamente a forma como uma organização pensa crescimento, inovação e relevância competitiva ao longo do tempo.
A professora Linda Hill, da Harvard Business School, trabalha uma representação bastante interessante dessa diferença. O GAP de performance representa a distância entre onde a organização está hoje e onde ela acredita que deveria estar dentro da lógica atual do negócio. Já o GAP de oportunidade representa a distância entre a posição atual da empresa e um espaço novo de criação de valor que ainda poderia ser construído.
Embora os dois sejam importantes, muitas organizações acabam desenvolvendo uma atenção quase obsessiva apenas ao primeiro.
O GAP de performance está ligado à melhoria operacional. Ele envolve eficiência, produtividade, controle, alinhamento, qualidade e execução. A pergunta dominante aqui é relativamente objetiva: “como fazemos melhor aquilo que já decidimos fazer?”. Essa lógica é fundamental para qualquer organização. Empresas precisam melhorar processos, reduzir desperdícios, aumentar produtividade e desenvolver capacidade consistente de execução. Nenhum negócio permanece competitivo no longo prazo operando de forma ineficiente.
O problema começa quando toda a energia gerencial passa a ser direcionada apenas para esse tipo de melhoria incremental.
Com o tempo, muitas organizações entram em uma espécie de aprisionamento operacional. Tornam-se extremamente sofisticadas em discutir indicadores, metas, eficiência e performance interna, mas dedicam pouca atenção à discussão sobre novas possibilidades estratégicas. Melhoram continuamente dentro da lógica atual do negócio, mas raramente questionam se essa própria lógica continuará relevante no futuro.
É justamente aí que entra o GAP de oportunidade.
Enquanto o GAP de performance busca reduzir a distância entre a empresa atual e uma versão mais eficiente dela mesma, o GAP de oportunidade envolve uma pergunta muito mais desconfortável: “e se estivermos olhando para o jogo errado?”. A questão deixa de ser apenas como operar melhor e passa a envolver a possibilidade de reinterpretar mercados, clientes, tecnologias, modelos de negócio e até a própria forma de criação de valor da organização. Essa diferença é decisiva porque eficiência operacional e relevância estratégica não são a mesma coisa.
Uma empresa pode operar extremamente bem e, ainda assim, estar se tornando gradualmente irrelevante. Pode melhorar indicadores trimestre após trimestre, aperfeiçoar processos continuamente e aumentar produtividade de maneira consistente, enquanto o ambiente competitivo muda silenciosamente ao seu redor. Em muitos setores, organizações não desaparecem porque executam mal. Elas desaparecem porque continuam otimizando um modelo cuja lógica estratégica já começou a perder aderência ao futuro. E esse problema é mais comum do que parece.
Os sistemas gerenciais tradicionais foram desenhados principalmente para administrar GAPs de performance. Indicadores, dashboards, metas, orçamentos e mecanismos de controle funcionam muito bem para coordenar aquilo que já é relativamente conhecido. Eles ajudam organizações a reduzir desvios, aumentar consistência e melhorar eficiência operacional. Mas esses mesmos sistemas frequentemente têm dificuldade para capturar oportunidades emergentes, especialmente quando elas ainda aparecem de forma ambígua ou contraditória.
O GAP de oportunidade raramente surge primeiro nos relatórios gerenciais. Ele normalmente aparece como sinal fraco. Uma mudança aparentemente periférica no comportamento dos clientes, uma tecnologia inicialmente subestimada, uma alteração regulatória ainda pouco compreendida ou um movimento competitivo que parece pequeno demais para justificar atenção. Organizações excessivamente orientadas apenas para performance tendem a ignorar esses sinais porque eles ainda não produzem impacto imediato nos indicadores principais. Existe quase uma lógica implícita de que aquilo que não pode ser medido claramente ainda não merece prioridade estratégica.
Mas grande parte das transformações mais relevantes começa exatamente assim: pequena, ambígua e aparentemente secundária.
Talvez esse seja um dos grandes paradoxos da gestão contemporânea. Muitas organizações desenvolveram enorme sofisticação para melhorar continuamente aquilo que já fazem, mas pouca capacidade para explorar aquilo que ainda poderiam se tornar. Tornaram-se excelentes em reduzir GAPs de performance, mas relativamente frágeis na exploração de GAPs de oportunidade. E isso exige capacidades organizacionais muito diferentes.
Administrar performance depende fortemente de disciplina, controle, alinhamento e eficiência. Explorar oportunidades exige interpretação, experimentação, aprendizado e disposição para questionar premissas que hoje parecem óbvias. O primeiro opera majoritariamente dentro da lógica atual do negócio. O segundo exige capacidade de imaginar possibilidades que ainda não estão totalmente visíveis.
No fim, organizações precisam dos dois. Precisam de eficiência operacional para sobreviver no presente, mas também precisam de capacidade estratégica para construir relevância futura. O problema é que muitas empresas concentram quase toda sua inteligência gerencial em administrar o presente e dedicam pouca energia à construção do futuro.
Talvez por isso a estratégia seja tão importante.
Não apenas porque ajuda organizações a melhorar performance, mas porque cria condições para perceber quando talvez seja necessário mudar o próprio jogo.




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